sábado, 23 de janeiro de 2016

“Casa de Machado espeto de Proença”

Por Danilo Lima

          A Academia Brasileira de Letras - ABL, com 118 anos de história, acaba de eleger seu segundo presidente negro, o professor Domício Proença Filho.



                                            (Machado de Asssis eDomício Proença)

           A casa de Machado, como era conhecida a ABL, foi Inaugurada em 20 de julho de 1897. Ela possui uma grande carga simbólica, pois foi fundada por intelectuais progressistas do século (XIX), a exemplo de Rui Barbosa, o seu segundo presidente.

          Sediada no Estado do Rio de Janeiro, a Academia ocupa hoje espaço físico do prédio Petit Trianon de Versalhes, que é uma réplica do edifício de mesmo nome na França. A instituição europeia inspirou o cultivo da língua no Brasil. A ABL é marcada por uma trajetória de vanguarda na busca pela valorização da língua, cultura e literatura brasileira, em um país à época, de maioria analfabeta.

          Talvez por esta razão lá, como cá, a Academia de Letras preserva certo status social para seus membros, atribuindo a esses um tratamento de autoridade quando o assunto é língua.

          Mesmo tendo como um de seus ilustres fundadores o carioca Joaquim Maria Machado de Assis, o garoto autodidata, de origem pobre e negra, que se tornou poliglota e o maior dos escritores brasileiros até os dias de hoje, a ABL não parece ter atingido as expectativas de seu precursor abolicionista.

          Não possuo capacidades místicas que me permitam fazer previsões. Mas acredito que Machado, se vivo estivesse, certamente trabalharia por uma Academia que atingisse seu fim de zelar pela língua, mas, que também fosse uma instituição republicana, afirmativa, representativa dos grupos étnico-raciais que compõem nossa sociedade, desde o “achamento” destas terras.

          Domício Proença Filho, o novo presidente da ABL, também é carioca e dono de uma importante trajetória acadêmica. Nascido em 25 de janeiro de 1936, é Doutor em letras e livre docente em Literatura Brasileira.

          Proença parece ter um projeto de gestão mais representativo da população negra para a ABL, e quanto a isso, lembra um pouco o grande Machado de Assis. O que, convenhamos, não é pouca coisa. Pois não se trata de qualquer academia, sabemos que o letramento, ou se preferirem, a educação, sempre foi um privilégio no Brasil, não é mesmo?


“Aqui, por vezes, educação não é direito, é boleto.”


Mas voltando ao tema... Dizia o novo presidente em seu longo discurso de posse o seguinte:


“(...) a Casa de Machado de Assis, uma vez mais, situa claramente o seu posicionamento, em termos de nossa contingência comunitária. Não nos esqueçamos tempos fundadores de Joaquim Nabuco e de Machado de Assis, a ação pioneira de Afonso Arinos.


Entendo, a propósito, que, na realidade brasileira, respeitadas as opiniões em contrário, o núcleo de preocupação deve ser o combate contínuo e vigoroso ao racismo”.

          Palavras belas não? Mas elas precisam se tornar prática, não só pelo que poderia ser a vontade de Machado de Assis ou de outros ilustres fundadores da ABL, mas, sobretudo, por que ainda temos um povo cativo da ignorância, uma ignorância decorrente do racismo em nossa sociedade.

          Por qual razão foi preciso mais de um século para que outro negro se tornar presidente da ABL? E, se foram necessários mais de cem anos para eleger o segundo negro presidente da ABL, de quantos anos precisaremos para eleger a primeira mulher negra presidente da republica?

          Teria o novo presidente o dever de agir afirmativamente em relação à população negra brasileira? Particularmente, penso que seria um gesto mínimo e simbólico, de reparação a nós negros/as e aos indígenas, por termos nossas populações dizimadas e nossas histórias violentadas.

          Reconhecimento e a Inclusão social de grupos excluídos são mais que necessários, é uma atitude consciente, um dever de todos nós. Não se pode mais tolerar o racismo.

         Ao novo presidente: que tenha sorte, uma boa gestão e que a imponente e pálida fachada do Petit Trianon “jamais se imponha sobre sua negritude”.



Fonte: Portal Africas 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Movimentos sociais convocam ato contra o genocídio


No próximo dia 25 de janeiro (segunda feira), aniversário da cidade de São Paulo, no período das 09 às 15 horas, acontecerá o ATO PÚBLICO CONTRA O GENOCÍDIO. O Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre das Periferias da Grande São Paulo e outras Entidades convocam a juventude negra as ruas para mais está ação antirracismo. O ato acontecerá na praça da Sé no centro da cidade

O Ato contará com apresentações gratuitas de O BREAK, MC´s, DJ´s, GRAFFITI e muito mais convoque sua quebrada pra chegar junto!




Contato com os organizadores :

Rapper Pirata - Fórum Municipal Hip Hop
11) 98216.2160

Chico bezerra - FST/SP e GTNM/SP
(11) 99909.9580

Compareça!

                                   


25 de janeiro em frente a Catedral, SP é o local!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

RACISTAS OTÁRIOS NOS DEIXEM EM PAZ!

Postado em 01/12/15 por Pedro Borges/Portal AlmaPreta


cincomorto


Texto: Danilo Lima / Imagem: Acervo Digital

Mais lagrimas, mais sangue, mais enterros, a marcha fúnebre prossegue. Os mortos mais uma vez são negros e os assassinos, mais uma vez, policiais militares.

5 jovens negros, inocentes, são fuzilados por policiais militares no Rio de Janeiro. Jovens que por pouco não foram incriminados pelos mesmos militares que tentaram forjar a cena do crime.

Estes fatos trazem a tona a urgente necessidade que temos em acabar com os chamados Autos de Resistência por meio da aprovação do projeto de Lei 4471/2012.

O auto de resistência é a justificativa do policial para o uso da força letal. Em outras palavras, quando um policial militar mata um individuo que, supostamente resistiu à prisão com força, a ocorrência é registrada como auto de resistência.


José Roberto chora a morte de seu filho de 16 anos, assassinado pela polícia junto com mais 4 amigos quando comemoravam o primeiro salário dele (foto: Guilherme Pinto/Extra).

Mas na pratica a medida é uma verdadeira licença para matar a juventude negra. Desse mecanismo decorrem os números absurdos de homicídios de jovens negros no Brasil, que permite também ao policial a possibilidade de incriminar as suas vítimas depois de mortas.

Vivemos no Brasil o pior dos cenários para população negra. Graças à competência e à resistência do movimento negro, todos sabem que são os pretos que estão em pior situação na pirâmide social. Que negros ganham menos, que são maioria nas favelas, que tem menos acesso à educação e que são as principais vitimas da violência policial.

Mas nem as mortes, nem as lagrimas ou as estatísticas parecem comover os racistas.

Seguimos denunciando a falsa abolição e a situação do negro cativo ao subemprego, preso aos grilhões da desigualdade e diariamente açoitado pelo racismo brutal em nossa sociedade.

Um alerta aos senhores e capitães do mato do pós-abolição: estamos cansados! O genocídio negro vai parar, por qualquer meio necessário.

O momento é de dor. Mas o desafio é transformar o luto em mais luta, até que sejamos libertos/as.



Postado originalmente no Portal Alma Preta 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

NÃO DÁ PARA COMBATER O GENOCÍDIO DOCILMENTE


por: Rapper Pirata 


Tem maluco nosso que alcança postos de decisões mas porque já está adaptado a meritocracia, esse não influência em nada, deseja somente receber dinheiro. Durante seu tempo de 'fake' luta ele foi negando as bases pobres, pretas e periféricas, porem as utiliza em discursos para convencer com seus simulacros de realidade politica.

Não quero parafrasear Marthin Luter King, só que também tenho um 'gangsta' sonho: Ah... Como seria muito 'loco' se nós pobres que tivemos e fazemos o hip hop como base na periferia entendêssemos nosso poder. Se buscássemos nosso espaço de poder politico sem se adaptar as regras que vão contra nós. Negássemos a concessão que mantem o racismo,miséria e uns como escolhidos para enganar nos.

A essência de nossa luta tem que ser para todos, mesmo sabendo que uns se enfraquecem, isso porque somos de um país que tem 400 anos de história de seu povo na escravidão, então extirpar de nossa cultura e filosofia de vida o sentimento de sobrevivência é difícil, ainda mais que o sistema capitalista aqui é de estrutura escravocrata.


                                     

Um povo tem que ter como lema a vida, para desfrutar da natureza que uma nação oferece, eliminando qualquer resquício de miséria que o outro esteja vivendo.

Os anos passam e nós achamo nos iguais aos diferentes brancos ricos que desfrutam na natureza do país, eles nos veem como inimigos, por isso decretam em suas falas e ordens no ornamento do estado o nossos espaço para convívio em favelas, cadeias, ruas e onde já não é possível ter vida, que é a morte gerada pelo racismo institucional do estado.

Esses que se utilizam dos discursos, já não me convencem porque conheci eles nos 'rolês', lá esses se 'caguetaram' que o 'bang' é só para eles. Então fazem as estratégias do poder consolidado há 500 anos, eles servis vão reforçando a divisão entre os iguais que é a maioria, mas querendo ser o diferente dócil para a minoria branca classe média racista.
Fucking niggaz!


sábado, 22 de agosto de 2015

Comissão Estuda crimes da escravidão em São Carlos

Por: Conajir

        Nomeada comissão local da Verdade Sobre a Escravidão Negra no Brasil. A cerimonia aconteceu na Ordem dos Advogados de São Carlos.

         O trafico negreiro para o Brasil marcou a estruturação de muitas das nossas cidades. Ainda hoje podemos encontrar sem muita dificuldade reflexos do período escravocrata.

        A cidade de São Carlos chegou a atingir o segundo lugar no tráfico de escravos para o interior paulista, ficando atrás somente para a região onde hoje é a cidade de Campinas. Muitas das marcas desse período ainda estão presentes na cidade seja, por exemplo, pelas varias fazendas com seus casarões, porões e senzalas, seja pela distribuição geográfica da população negra da cidade, que em geral, encontra-se em zonas periféricas.


(Fazenda do Pinhal-São Carlos)

       Presidida pelos advogados Renato Barros e Sara Bononi a comissão é composta por 04 membros efetivos que são advogados e por 12 consultores da sociedade civil e representantes de movimentos sociais da cidade.

      Dentre suas atribuições cabe a comissão de São Carlos auxiliar do poder público no combate à discriminação racial apontando caminhos e propostas de políticas públicas afirmativas de que corrijam essas desigualdades históricas.

       Segundo Alexandre Reis que é dos consultores: “A Comissão é importante porque ela contribuirá para um aprofundamento da história do negro no Brasil. Há muita coisa dessa história que pode ser perdida num espaço de até menos de uma década se algo não for feito no sentido de recolher e centralizar registros de uma geração já envelhecida e que teve parentes escravizados”.


                                     (Nomeação de Membros Comissão da Verdade da Escravidão Negra São Carlos)

    Embora nomeada formalmente na noite de ontem, 21/08/2015 a Comissão da Verdade da Escravidão Negra – São Carlos já iniciou seus Trabalhos a partir do levantamento de documentos e produções acadêmicas sobre as questões da escravização negra, tendo por meta ainda a realização entrevistas, o registro de materiais objetos que contribuam para elucidação do modo como viviam negras e negros escravizados na cidade.

        Esses registros comporão um relatório de atividades que será enviado para a Comissão Estadual da Verdade Sobre a Escravidão Negra e em seguida, juntamente com os outros relatórios regionais, será enviada para os membros da Comissão Nacional.

      Comenta Viviane Rocha, relatora da comissão, que: “É preciso Lembrar que a pergunta que norteia nossa pesquisa e futuro relatório é: Como se deu a escravidão e quais os crimes que ocorreram durante ela”.  

         Conclui a DraBononi, visse presidenta da Comissão da Verdade da escravidão Negra em São Carlos que se trata de: “Uma Iniciativa sem precedentes da sociedade de civil organizada com fim de apresentar à sociedade e ao Estado dados concretos de uma das maiores tragédias da humanidade, até hoje não reparada”.   


 (Dra. Sara Bononi/ vice Presidente CVN - São Carlos)

        Certamente o trabalho da comissão da verdade é mais uma importante ferramenta para justiça histórica que precisa ser realizada por todos nós. Portanto acompanhe o trabalho da comissão não deixe de contribuir, participar da construção de um país mais com mais igualdade e justiça social.


Leias mais sobre escravização no Brasil: Um Cemitério à beira-mar





segunda-feira, 29 de junho de 2015

Lutas Cotidianas

Por: Ana Nery

Argumentar e lutar contra o ideal dominante excludesnte deve ser sempre nossa luta interna e externa maior.

Como se costuma dizer é na mesa do almoço ou do jantar, no encontro familiar ou com amigos/as, onde podemos dialogar sobre diversos assuntos, conversas casuais de temas variados que muitas vezes dão muito “pano pra manga” como se diz na minha terra.

É como um ringue, numa luta de boxe, por vários rounds seguidos.



Só que dessa vez 3 contra um... Mas o Um que carregava o discurso do dominante, do lugar de privilégio, de um saber posto como legítimo numa sociedade machista e racista que se diz uma democracia racial.

Não, não é fácil nocautear o racismo, o argumento de que somos uma nação mestiça e a ideia romantizada da miscigenação evidenciam o quanto ainda precisamos conhecer de fato nossa história...

O corpo dói, a alma também... O cansaço depois é incontestável, o corpo sente todo o peso, a voz falha, as forças parecem definhar. Precisam ser renovadas...

E são também nesses espaços que ele vem à tona. Como nas pesquisas feitas pelo IGBE ou outros órgãos do ramo (http://arquivo.geledes.org.br/racismo-preconceito/racismo-no-brasil/23333-pesquisa-analisa-racismo-no-brasil), sempre conhecemos alguém racista, mas nunca nós mesmos o somos. E num simples encontro entre pessoas queridas, podemos experienciar o quanto é difícil nocautear os argumentos de quem detém lugar de privilégio na nossa sociedade.

Ser negro/a em nossa sociedade é estar constantemente nesse ambiente de luta, de combate, como num ringue;

Ser um/a branco/a que esta na luta como parceiro/a ou como parte dela, em nossa sociedade, é ser visto como um/a branco/a subversivo/a;

Ser mulher numa sociedade machista e sexista como a nossa é estar sob constante tensão e julgamento, em ambientes marcados pela herança das relações patriarcais e historicamente desiguais;

Parece que andamos na contramão do coerente. Mal conseguimos enxergar o/a outro/a em nossa volta, não conseguimos ver o óbvio! E os/as que conseguem ver o que está a nossa frente, de forma alarmante e adoecendo nossa sociedade, por favor, vamos “não abandonemos o ringue”!


Se não for pra vencer o opressor por nocaute, que seja por cansaço, por pontos ganhos, por melhores argumentos, por força, por luta.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

OS LADOS DA(S) REDUÇÃO(ÇÕES).

 Por: Alexandre Reis*

            Como comumente ocorre a todos os temas polêmicos que transitam em locais de grande visibilidade, eles são debatidos pelos “intelectuais oficiais” de maneira superficial e, o que é pior, parcial. Ser a favor da redução da maioridade penal em nosso país é defender um upgrade no mecanismo institucional de exclusão e discriminação. Não há meio termo nesse ponto. O que causa divisão nesse grupo a favor da redução da maioridade é que alguns defendem porque são conscientes dos efeitos e outros porque são iludidos com uma narrativa no estilo “Cidade Alerta” que coloca a impunidade como a única causa do crime. Essa narrativa da punição sempre apareceu em meus debates sobre o tema. Não foi diferente no último, quando, no grupo UFSCar do Facebook, dispararam essa:

A questão não é diminuir,é punir. Pergunte pra uma mãe que teve um filho morto por uma" criança" dessas se ela não tem razão em ser a favor da redução.”

            Vivemos num país erguido sobre a discriminação e a exclusão do povo preto. Esse contexto deveria tornar evidentes os efeitos da ideologia conservadora que dá ao indivíduo total responsabilidade por sua história, mas, como aquela frase mostra, isso não é evidente para os que compram tal ideologia sem saber.
            Assim, o que se faz necessário, nesse contexto, é termos na ponta da língua os fundamentos e os argumentos que serviram para instituir as cotas para negros e estudantes pobres. Logo de cara podemos bater o martelo de que defendemos uma concepção de indivíduo que é fruto de e possui uma história. Não são aquelas velhas ideias deterministas que não davam espaço para a individualidade, pelo contrário, é a defesa de uma individualidade que tenha direito a voz por não estar calada e atada com as mordaças do individualismo e da meritocracia. Em resumo e para gravar: uma luta que se trava contra o conservadorismo começa por afirmar a historicidade de todo o sujeito.
            Alguns podem pensar “olha o marxista falando”, mas, mesmo sendo empiricamente verdade, não posso ser injusto e compartilhar dessa visão que dá ao marxismo o monopólio da defesa da historicidade. Essa bandeira transcende muito o marxismo como essa frase de Abdias do Nascimento nos mostra:

Abdias do Nascimento,1983/acervo Ipeafro.
"A história do Brasil é uma versão concebida por brancos, para os brancos e pelos brancos, exatamente como sua estrutura econômica, sociocultural, política e militar tem sido usurpada da maioria da população para o benefício exclusivo de uma elite branca/brancóide, supostamente de origem ário-europeia (Nascimento in O quilombismo, p.15)."

            Dito isso, podemos agora trazer uns fatos que revelam um pouco da historicidade do negro no Brasil. Começando pelo que é já lugar-comum, lembramos que o pós-abolição não foi um corte entre uma sociedade escravagista e outra sociedade igualitária. Se, nesse momento, os negros sofreram na pele os efeitos de uma história que não os permitiu o acesso a uma formação educacional, tal situação se agravou quando o Estado interveio para incentivar a imigração de europeus sob uma demanda do mercado de trabalho, o que colocou os negros numa maior desvantagem. Podemos ver aqui o embrião do racismo institucional por essa combinação de falta de politicas públicas que conduzissem o negro para uma efetiva cidadania e o incentivo do Estado às imigrações? Acredito que sim.
            É impressionante que esse papel do Estado como reprodutor e criador de desigualdades raciais (racismo institucional) só recentemente, do ponto de vista histórico, tenha sido estudado. Isso só foi possível pela organização de movimentos sociais que lutaram por uma sociedade que não excluísse os negros, ou seja, os movimentos sociais que compunham o Movimento Negro. Interessante notar aqui essa constante: foi só com a mobilização negra que o Estado, como ferramenta de discriminação e exclusão, foi questionado. Essa necessidade de se ver o outro lado, o lado do excluído, fica evidente numa frase do jornalista negro José Correia Leite explicando a necessidade de uma imprensa negra:

a comunidade negra tinha necessidade de uma imprensa alternativa, que transmitisse informações que não se obtinha em outra parte.”  (in E disse o velho militante: depoimentos e artigos. Organizado por Cuti,  p. 33)

            Não vou pontuar outros momentos históricos do Movimento Negro, mas gostaria de deixar claro a semelhança das pautas que estavam no surgimento desse movimento com duas pautas mais próximas de nós, a defesa das ações afirmativas e a luta contra a redução da maioridade penal. Todas elas se configuram num cenário onde o lado dominante tenta calar os oprimidos: na época de José Correia Leite, pelo monopólio dos jornais, em nossa época, pela defesa da meritocracia e do individualismo, no debate das ações afirmativas, e defesa duma visão onde o crime se combate exclusivamente pela punição, no debate da redução.
            Nos debates sobre ações afirmativas tivemos, mais uma vez, como adversários uma ideia reducionista, que foi aquela que entende igualdade somente de uma maneira formal. Nesse sentido, o discurso dos anti-cotas foi e ainda é muito previsível: as cotas ferem o princípio formal de igualdade. O lado esquecido por esse discurso, seja de forma consciente ou não, é que o conceito de igualdade evoluiu muito no meio jurídico por conta das desigualdades criadas pelo capitalismo. As lutas dos operários por melhores condições de trabalho trouxeram para o centro do debate jurídico uma visão onde a igualdade formal não era desassociada da igualdade material.
            Esse abandono do individualismo em prol de um pensamento mais social e do formalismo em prol de um pensamento mais concreto também permitiu que as ciências sociais descobrissem fenômenos que não são redutíveis ao indivíduo em si, como o racismo institucional:

...a ciência social começa a abandonar os esquemas interpretativos que tomam as desigualdades raciais como produtos de ações (discriminações) inspiradas por atitudes (preconceitos) individuais, para fixar-se no esquema interpretativo que ficou conhecido como racismo institucional, ou seja, na proposição de que h· mecanismos de discriminação inscritos na operação do sistema social e que funcionam, até certo ponto, à revelia dos indivíduos. ( A (Antônio Sérgio Alfredo Guimarães in Desigualdade que anula a desigualdade: notas sobre a ação afirmativa, p.156)

            Já no atual debate sobre a redução da maioridade penal, a posição dos conservadores é marcado por outro reducionismo: o do discurso da impunidade. O que é deixado de lado aqui é, simplesmente, a principal causa de nossos níveis alarmantes de criminalidade: a desigualdade social. Essa lógica do mais-punição = menos-crime seria inaceitável na maior parte do mundo, mas no contexto brasileiro ela se torna mais que isso, ela se torna criminosa porque ignora que grande parte da criminalidade tem motivação na eterna reprodução do círculo de ferro da pobreza, por conta da ausência de políticas públicas inclusivas, e, no caso dos negros, também pelo racismo institucional.


Crianças biricando entre o lixo e escombros. Virgem dos Pobres/Maceió/AL/Brasil (Crédito: Tudo na Hora)

            Ou seja, para se falar de juventude negra e pobre no Brasil, deve-se falar também dessas duas forças que não são redutíveis ao indivíduo, o racismo institucional e o círculo de ferro da pobreza, e que empurram essa juventude para a marginalização. Lembrar-se dessas duas forças também nos serve para sairmos de uma visão igualmente reducionista do racismo, que o coloca como sendo algo intencional do indivíduo. Vemos toda uma mídia mobilizada para falar de racismo no Brasil somente pelo viés da atitude racista, ou seja, aquela que há intenção de discriminar. Esse outro reducionismo deve ser combatido nesse novo debate sobre a redução da maioridade penal para pautarmos o lado mais perverso dos mecanismos que condenam o negro e que serão, caso seja aprovada, enormemente reforçados: os mecanismos institucionalizados.
            A juventude negra, independente da classe social, é já forçada a receber menor atenção dos professores; forçada a ter sua cultura posta do lado de fora da escola; forçada a estudar uma história de brancos e para brancos; forçada a ser vítima de estereótipos criados todos os dias pela grande mídia; forçada a ser o alvo preferencial de uma arma policial e tudo isso se agrava enormemente quando lembramos do machismo, a outra força que se alia àquelas duas para discriminar a mulher negra.
            Portanto, os defensores da juventude negra e pobre devem ficar atentos às outras reduções que aquela bandeira conservadora nos traz: reducionismo individualista, que procura apagar a historicidade, ou trajetória, dos sujeitos; reducionismo da concepção de igualdade, que não se atenta para a igualdade material; reducionismo da lógica mais-punição = menos-crimes, que busca ocultar os papéis da desigualdade social, do racismo institucional e do círculo de ferro da pobreza nesse fenômeno social e, por fim, o reducionismo da concepção de racismo, que o coloca unicamente como ação subjetiva e ignora seu lado institucionalizado.


* Graduando em Letras pela UFSCar. Formado em Português pela Universidade de Coimbra (Portugal) no abrigo do Programa de Licenciatura Internacional (PLI, Capes). Frequentou por dois anos (2008-2009) o curso de Letras na Universidade de Santo Amaro (UNISA) com uma bolsa integral do ProUni. Membro do Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe) sob a coordenação do Prof. Dr. Valdemir Miotello, no qual desenvolvemos pesquisas sobre Filosofia da Linguagem, tendo como suporte as ideias de Mikhail Bakhtin. Tem interesse nas áreas de Filosofia da Linguagem, Hermenêutica, Análise de Discurso, Filosofia da Ciência, Filosofia Política, Literaturas Africanas e Ensino-Aprendizagem.

Textos consultados:

DOMINGUES, Petrônio. Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos. Tempo,  Niterói ,  v. 12, n. 23, p. 100-122,   2007 .   Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-77042007000200007&lng=en&nrm=iso

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo; SOUZA, Jessé. A desigualdade que anula a desigualdade: notas sobre a ação afirmativa no Brasil. Multiculturalismo e racismo: uma comparação Brasil-Estados Unidos. Brasília: Paralelo, v. 15, p. 233-242, 1997.

NASCIMENTO, Abdias do. O quilombismo. Vozes, 1980.

SILVERIO, Valter Roberto. Ação afirmativa e o combate ao racismo institucional no Brasil. Cadernos de pesquisa, v. 117, p. 219-246, 2002. Disponível em: 
http://www.scielo.br/pdf/cp/n117/15560.pdf