sábado, 16 de agosto de 2014

Quanto vale uma vida, exceção virou regra no Brasil?


 Escrevendo agora à noite, ouço a reportagem do jornal sobre um protesto realizado numa cidade dos Estados Unidos pela morte de um jovem negro por um policial. Como a reportagem me chamou atenção, fui pra frente da TV ver do que se tratava. Na reportagem os manifestantes protestavam nas ruas pela morte do jovem, que segundo testemunhas, foi morto pelo policial mesmo quando já tinha se rendido.

O fato é que o que me chamou atenção na reportagem, para além de ter ficado revoltada com a ação policial e a morte de um jovem negro, certamente por uma atitude racista, já que ser negro no imaginário policial, muitas vezes, significa ser bandido, foi a pronta reação a essa violência.

         As autoridades do governo foram acionadas imediatamente para dar explicações sobre morte do jovem Michael Brown, e até o presidente Obama fez um pronunciamento público sobre, no qual condenou a repressão policial aos manifestantes e a prisão de alguns jornalistas que cobriam o ocorrido. Até ontem 14/08, mais de 30 pessoas já tinham sido presas durante as manifestações que já duram 04 dias.

           Outra questão muito seria a ser observada é que conforme já havia relatado um amigo de Brown, por meio de um pericia preliminar, se constatou que Michael Brown foi alvejado por vários tiros na cabeça. Fato que configura não uma morte circunstancial, mas sim um assassinato, neste caso não é difícil compreender a revolta dos manifestes contra a ação policial.

Manifestantes marcham em protesto contra a morte de Micahel Brown no centro de Ferguson, Missouri, em 11 de agosto Foto: Sid Hastings / AP

Aqui no Brasil, hoje mais cedo, olhando meu Facebook, vi uma postagem revoltada de um companheiro que dizia “até quando?” se referindo ao assassinato de um jovem negro em Salvador- Bahia.

Ao me deparar com os dois casos, logo pensei: quantos jovens negros/as precisam morrer no nosso país para que se tomem providências mais incisivas? Obviamente que não estou querendo dizer aqui que os Estados Unidos são o um modelo ideal de nação não racializada a ser seguida, no entanto, não vejo, por exemplo, a governadora do meu estado ou outros governantes se pronunciarem diante do alarmante quadro de mortalidade juvenil que se encontra o Brasil.

        No Brasil a cada 100 mil jovens, 53,4 foram assassinados, em 2011 e os crimes foram praticados contra pessoas entre 14 e 25 anos (Mapa da Violência, 2013);

            Em 2010, foram contabilizados 192.804 casos de homicídios no Brasil. Números superiores a somatória de homicídios ocorridos em países que estiveram em conflito armado, como Israel/Territórios Palestinos, Iraque, Afeganistão, Colômbia, Paquistão, Índia, Somália e Sudão, que entre 2004 a 2007 somavam 157.332. (WAISELFISZ, 2012);

         Em 2011, do total da população, o número de vítimas de homicídios de cor ou raça branca diminuiu em 22,3%, entre 2002 e 2008. Entre os negros (pretos e pardos), o percentual de vítimas de homicídio cresceu em 20,2%, no mesmo período. Em 2002, foram vítimas de homicídios, proporcionalmente, 45,6% mais negros do que brancos. Em 2005, pelo mesmo motivo, morreram 80,7% mais negros que brancos e, em 2008, morreram 111,2% mais negros que brancos.

Embora a demanda 1 da I Conferencia Nacionalde Políticas Públicas de Juventude tenha sido a Campanha contra o Genocídio da Juventude Negra e apesar de todos os esforços dos Movimentos Negros, Movimentos De Juventudes, Fórum Nacional de Juventude Negra, entre outras entidades ainda não conseguimos acabar com ou reduzir consideravelmente os números de jovens negros mortos no país. Ainda suamos muitos para tentar dar visibilidade a essa pauta. Não vejo nos jornais de grande visibilidade nacional a cobertura das Marchas feitas pela campanha “Reaja ou seja Morto, Reaja ou Seja Morta”.

       "Para termos uma ideia, em 2012, 1.890 pessoas morreram em supostos confrontos com a policia no Brasil. Enquanto que nos EUA, país com uma população 60% maior que a do Brasil, no mesmo período, 410 pessoas morreram na mesma situação." Além disso, temos uma das menores taxas de resolução de crimes violentos, um sistema prisional falido e o maior contingente jovem da história brasileira 51 milhões. Ou seja, a questão da violência no Brasil é urgente e absolutamente grave.

           Em 2013 por razão da morte do garoto Trayvon Martin, assassinado por um segurança que o confundiu com um bandido, Barack Obama, primeiro presidente negro dos EUA, também se pronunciou a nação dizendo "poderia ter sido eu".

           É certo que a luta contra violência não deve ser desempenhada tão somente pelos governantes, toda sociedade deve estar envolvida nesse objetivo. Mas ao ver na TV o pronunciamento do presidente Obama, várias coisas me vieram a mente. Uma delas foi que: se nossos governantes fossem se pronunciar publicamente para explicar e cobrar justiça por cada caso de jovens negros/as mortos/as pela polícia no país, nós não teríamos mais horários disponíveis na televisão para outro tipo de programação.

Contribuições: Danilo lima

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Luta Negra e Privilégio Branco

por: Danilo Lima

          É fato que o  negros escravizados construíram este país. O Brasil deve muito ao seu povo e principalmente ao povo negro, mas parece não ter consciência dessa divida.

Revolução Haitiana 1791 a 1804

     Historicamente lutamos pela preservação do que é nosso. Desde África há resistência negra, para preservação a cultura, da religião, dos valores que ainda hoje são constantemente violentados. Pois “a casa grande jamais voltou os olhos para a senzala sem subjuga-la”.

          Mas resistimos, bravamente resistimos, e lutamos pela liberdade de nossa prática religiosa, por educação, saúde, trabalho, moradia de qualidade e fundamentalmente por igualdade de oportunidades. O que há de mal nisso? Por que tantos se voltam contra as políticas afirmativas, sociais e inclusivas que defendemos?

          Entendo que parte do problema é que os historicamente os privilegiados não reconhecem sua posição social, como bem diz Leopoldo Duarte em  seu texto recente “Se o mundo é racista não ser alvo de racismo já é um modo de gozar de privilégios.” Afinal a miscigenação brasileira NÃO se verifica nos postos de poder do país.

         É necessário observar que quando o movimento negro, historicamente, denuncia a violência e as práticas genocidas contra a população negra e principalmente contra sua juventude, ele se mobiliza em favor da vida, que é um direito universal.

         É fato que a luta do movimento negro por políticas afirmativas de cotas raciais abriu também as portas da universidade pública para alunos brancos e carentes das escolas públicas.

        É fato também que a luta por emancipação da mulher negra emancipa também a sociedade brasileira, considerando que negros somam mais da metade da população brasileira e que essas mulheres negras são, em suma maioria, as responsáveis pelo sustento de suas famílias, mesmo sendo elas empurradas pelo racismo a base da piramide social.

        Mas como aponta o professor Adilson Moreira, no Brasil temos sim uma elite branca de classe media alta, majoritariamente masculina e heterossexual, que se demonstra irredutível quanto a deixar sua posição social privilegiada, e que manda no país a partir dos postos de comando que ocupa.

        Não obstante,  oportunistas ainda fraudam as políticas afirmativas para negro/as que tão duramente construímos e conquistamos, mais uma vez, se beneficiam do nosso sacrifício entrando nas vagas reservadas para negros nas universidade públicas, como ocorreu na UERJ, ou em concursos públicos, ou ainda nas vagas para diplomacia  no Itamaraty como os denunciados pela Educafro em SP.

        Se somos a maioria da população brasileira, se temos a exata consciência que o Estado brasileiro nos deve, e muito, se mesmo lutando por direitos universais somos excluídos e discriminados, se quando conquistamos direitos nos roubam as oportunidades, se sabemos que o racismo é um projeto de dominação que nos subalterniza, lhes pergunto, ansioso pela resposta: O que tem anestesiado a revolução negra contra o privilégio branco no acesso às oportunidades nesse país?



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Juízes querem discutir ações afirmativas


A Associação Juízes para a Democracia lança nota pública convidando a sociedade brasileira discutir a promoção de políticas de cotas raciais para o Poder Judiciário.

                       O MOMENTO PARA DISCUTIR AS COTAS RACIAIS NO JUDICIÁRIO


A ASSOCIAÇÃO JUÍZES PARA A DEMOCRACIA - AJD, entidade não governamental, sem fins lucrativos ou corporativistas, que congrega juízes trabalhistas, federais e estaduais de todo o território nacional e de todas as instâncias, e que tem por objetivos primaciais a luta pelo respeito absoluto e incondicional aos valores jurídicos próprios do Estado Democrático de Direito e pela defesa da independência judicial, vem apresentar a presente NOTA a respeito das cotas raciais no Poder Judiciário.

No mês de junho do presente ano de 2014, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou os dados coletados para o primeiro Censo do Poder Judiciário realizado em todo o país. Em relação à distribuição racial da magistratura brasileira, o censo revelou que apenas 14% dos juízes de direito se declararam pardos, 1,4% se identificaram pretos e 0,1% se declararam indígenas; tais dados, em contraste com a esmagadora maioria de 84,5% que se declarou branco.

Trata-se de mais um, dentre tantos outros informes estatísticos divulgados diariamente por todo o país, que desmonta a tese da existência da democracia racial brasileira. Dois séculos de independência política frente a metrópole portuguesa não lograram eliminar relações eminentemente coloniais baseadas em critérios raciais, onde o branco ocupa as funções inseridas no ápice da pirâmide social-econômica, ao passo que o preto e o indígena, aquelas situadas na base da mesma pirâmide.

Tal quadro é socialmente naturalizado, vindo a legitimar o formato dos concursos de ingressos à carreira da magistratura baseados em uma adulterada meritocracia que desconsidera o pressuposto da existência de ponto de partida igual entre os candidatos. O que se tem em tempos atuais são concursos que nem sempre refletem o mérito de todos os extratos da sociedade brasileira, realizando, conforme explicitado pelo censo, “[...] discriminação, subalternização e desumanização com base nos atributos de raça e cor, ou seja, trata-se de racismo.”

A despeito de consistir em reflexo de problema que alcança todo o país, a prevalência de brancos nas atividades-fins do Poder Judiciário traz consigo efeitos políticos e jurídicos peculiares à atividade jurisdicional. Não se pode olvidar que a interpretação e a aplicação de documentos legais exigem a emissão de “[...] juízos morais sobre questões que dividem profundamente os cidadãos, como o aborto, o auxílio ao suicídio e a justiça racial”, a depender da visão de mundo de cada magistrado.

Ora, um Judiciário que, internamente, não contribui para a democratização racial apresenta, como consequência imediata, dificuldade em externar a visão de mundo das raças historicamente colonizadas. Os juízos morais que influenciam a atividade jurisdicional limitam-se, quase exclusivamente, aos adquiridos pelos brancos nunca escravizados e nem submetidos a qualquer processo de dizimação.

A promulgação de uma Constituição Federal (CF) que estipulou como um dos objetivos do Estado brasileiro a promoção do bem de todos sem qualquer forma de discriminação (art. 3o, IV) não foi, portanto, suficiente para inserir a visão de mundo das raças colonizadas nas decisões judiciais. Trata-se de circunstância que parece não deixar dúvida de que a positivação de direitos, embora de suma importância para o alcance de demandas dos excluídos, não basta para a correção de injustiças históricas e para a promoção de democracia pluralista.

A implementação de ações afirmativas por parte do Estado revela-se, assim, importante instrumento para a efetivação dos valores emancipatórios positivados. No caso do Judiciário, a possibilitar que a visão de mundo das raças de há muito colonizadas também seja externada na resolução dos conflitos de interesse, gerando maior sensibilização sobre velhos problemas relativos à discriminação e ao preconceito não sentidos na pele da maioria branca que atualmente ocupa a magistratura.

Há, é bem verdade, políticas de cotas nas universidades que podem ampliar o acesso de pretos e indígenas à formação jurídica, imprescindível ao ingresso na carreira da magistratura. Todavia, trata-se de ação, isoladamente, insuficiente, na medida em que os concursos para os cargos de juiz de direito apresentam etapas – especialmente a fase oral – sujeitas à subjetividade dos membros das bancas julgadoras, em sua maioria formada pelos mesmos brancos que ocupam a quase totalidade do Judiciário brasileiro, compartilhando uma visão de mundo que nem sempre conhece o histórico de colonizado da imensa maioria excluída da carreira.

A implementação das política de cotas não significa, outrossim, que haverá distribuição aleatória de vagas em concursos para a magistratura. Os candidatos que pleitearem o ingresso na carreira submeter-se-ão às mesmas provas que os demais concorrentes, com a diferença de que se identificarão como pretos ou indígenas no ato de inscrição.

O fato de o atual formato dos referidos concursos dificultar a aplicação das cotas (por exemplo, aprovando número menor de candidatos ao de vagas abertas, ante a insuficiência das notas dos reprovados, conforme exigência de edital) não pode ser óbice às políticas afirmativas. O certame é uma construção humana – e não um fato da natureza -, podendo, por tal motivo, sofrer modificações para se adaptar às exigências de democracia racial.

Por fim, lembra-se que as ações afirmativas, além de se amoldarem à igualdade material projetada constitucionalmente (art. 5o, caput , da CF), encontram amparo jurídico na Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. O artigo 1o, parágrafo 4o desse diploma normativo estabelece que não serão consideradas discriminatórias “as medidas especiais tomadas com o único objetivo de assegurar o progresso adequado de certos grupos raciais e étnicos ou de indivíduos que necessitem de proteção para poderem gozar e exercitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais em igualdades de condições.”

A Associação Juízes para a Democracia entende que está na hora de a sociedade brasileira discutir a promoção de políticas de cotas raciais para o Poder Judiciário. Sob uma ordem normativa que cerca de um quarto de século atrás prometera ser a Constituição-cidadã, não se pode continuar a negar a cidadania à grande parcela da população, impedindo-a de ingressar na função estatal de aplicar o Direito ao caso concreto, essencial aos fins emancipatórios do Estado brasileiro consagrados em sede constitucional.



São Paulo, 6 de agosto de 2014.





fonte: http://ajd.org.br                                                                                       06/08/2014

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Mulheres Negras, Latino Americanas e Caribenhas - CONAJIR

          O fato de serem mulheres já estabelece para milhares de pessoas condições de sulbalternização, pois elas  tem que enfrentar o machismo, a violência preconceitos e muitas vezes a falta de atenção dos governantes para a questão feminina. Mas dentre os grupos sociais, o grupo de mulheres negras da América Latina, talvez seja um dos mais  vulneráveis, ou seja, é o grupo que está mais exposto a situações desfavoráveis em relação  a saúde direitos humanos trabalho educação e qualidade de vida. Assim para ampliar a luta contra essa situação negativa em 25 de julho de 1992, no I Encontro de Mulheres Latino-americanas e Afro-caribenhas, em Santo Domingo, capital da República Dominicana, determinou-se a data como um marco internacional da luta e resistência da mulher negra.




         Ao longo dos anos a construção de uma resistência e a lembrança do dia 25 de julho como um dia de  reconhecimento da luta das mulheres  negra latino-americanas e caribenhas tem sido cada vez mais intensa. E, essa é nossas singela homenagem todas essas princesas e rainhas negras de África e da diáspora, pois como dizia uma das nossas mais importantes lideranças negras VAMOS A LUTA COMPANHEIROS, PARA QUE A EXPLORAÇÃO E OPRESSÃO TERMINEM NESSE PAÍS! (Lelia Gonzalez)






domingo, 6 de julho de 2014

"Uns prefere morre ao ver um preto vencer"


Já dizia Criolo "Uns prefere morre ao ver um preto vencer"

Por: Daniel Ramos


O ódio fascista em relação ao jogador colombiano que quebrou o agora queridinho e antes odiado Neymar Jr, a meu ver, tem origens muito semelhantes.
Vamos nos atentar aos fatos: ambos são jogadores de futebol, citem aí, quantos técnicos são negros? quantos presidentes da fifa? predidentes de fererações como a CBF? alguém sabe o nome de algum? Por favor, deixe a resposta nos comentários.
Voltemos, "Crime, futebol e música.." como diz o clássico "Negro Drama" dos Racionais Mc's são as 3 principais formas que jovens pretos e pobres conseguem de ascensão social. É o que é mais possível de ser feito, e é isso que eles querem que façamos. Podemos jogar bola, mas fazer sucesso, ficar famoso e ganhar dinheiro já é vandalismo.

O que me espanta é ver gente que se diz politizada odiando cegamente neymar e muitos outros jogadores de futebol que sofrem/sofreram tanta violência por conta de um pensamento branco-elitista e que por serem "iluminadas" se sentem no direito de menosprezar um irmão que está na mesma situação que nós. Podem até dizer que os caras tem dinheiro, mas então o dinheiro é o mais importante? A pessoa que diz isso corrobora a argumentação tapada de que o problema que enfrentamos é puramente economico ECONÔMICO. Aí a gente cai nas pegadinhas, esquece de raça, gênero, orientação sexual e achata tudo pra resolver pelo dinheiro. Digo isso pois vejo pessoas que até ontem, assim como neymar, nem suspeitavam de sua negritude o apedrejando, tal qual a "torcida brasileira" tem apedrejado o jogador colombiano. Ódio gera ódio. Falta de informação gera desinformação. Sobra ego inflado, falta humildade, falta empatia....

sábado, 7 de junho de 2014

"Dança ai Negro Nagô"


          Rejeição à primeira vista. Assim descreveria a primeira vez que me deparei com a música: Negro Nagô, foi por ocasião de um curso que fiz na PUC-SP, a principio não entendi bem o por que dela ser cantada ali, achei estranho, e a cada estrofe eu ficava mais incomodado.  A “cantiga” começava assim:

“Eu vou tocar minha viola
 Eu sou um negro cantador
 O negro canta, deita e rola
 Lá na senzala do Senhor”.      

          De pronto, já observei a afirmação de alguns estereótipos negativos sobre o negro: nos dois primeiros versos é apresentando o negro como um ser orientado ao tocar e cantar, e em seguida é passada a noção de que há uma espécie de “adaptação positiva” do negro a senzala. Observe ainda o “Senhor”, com letra maiúscula. Entretanto, apesar da primeira parte indigesta, na segunda estrofe, veio um relativo conforto:

“Tem que acabar com essa história
 De negro ser inferior
 O negro é gente e quer escola
 Quer dançar samba e ser doutor”

          Mas, mal sabia eu que teria que ouvir serem repetidos, mais de 15 vezes, até o fim da música um sonoro “Dança ai Negro Nagô”. O que para mim definia a mensagem principal transmitida pela música.



          Para entender o teor de minha de minha critica é fundamental perceber que em nossa sociedade negros e negras são costumeiramente associados ao campo da corporeidade e nunca do intelecto.

(Negros dançando ao som de tambores, tela de Zacharis Wagener)

         No racismo à brasileira, se construiu um lugar social para o negros bem sucedidos, e este lugar não está no campo das ciências ou do intelecto. Espera-se que homens negros sejam esportistas, trabalhadores braçais, mas não cientistas ou médicos. Espera-se de mulheres negras que saibam sambar ou que não façam corpo mole nas duplas jornadas de trabalho como domesticas e cuidadoras do lar, mas nunca que sejam engenheiras ou sequer universitárias (Leia mais aqui)
          Bem, procurei desesperadamente na internet o autor da referida musica, eu queria saber se era um negro(a), não encontrei, mas na pesquisa ela era sempre atribuída a Pastoral da Juventude – PJ.

          Ora, fiquei me perguntando: o que os levou companheiros(as) da Pastoral da juventude a eleger essa interpretação do negro como modelo ao ponto de reproduzi-la em grande parte das atividades que organizam? Será que foi sugestão de alguma corrente do movimento negro? Será que é uma exclusividade minha o estranhamento com o teor desta letra?

        De qualquer modo, de uma coisa eu tenho certeza, a condição social dos negros neste país não me inspira a cantar e dançar, mas à resistência contra as opressões centenárias que nos aflingem. Homens jovens negros são a principais vitimas da violência policial (Leia mais aquiMulheres negras estão na base da pirâmide social (leia mais aqui) Crianças negras são preteridas nos processos educativos (leia mais  aqui), Portanto, em vez de cantigas de alegria, ouço bradar do meu povo negro um soluçar de dor.

“Esse canto que devia
 Ser um canto de alegria
 Soa apenas
 Como um soluçar de dor”

(Canto das três Raças, Clara Nunes)

         Não é objetivo deste breve desabafar estabelecer a verdade sobre o que se pode ou que se deve dizer sobre os negros. Não se trata de autoritarismo. Pois de fato considero que os ritmos e musicalidade sempre estiveram e estão presentes na cultura africana e afro-brasileira, prova marcante disso é o belo Hino da Negritude criado há 70 anos atrás pelo poeta, professor e grande liderança negra Eduardo Oliveira:

"Sob o céu cor de anil das Américas
Hoje se ergue um soberbo perfil
É uma imagem de luz
Que em verdade traduz
A história do negro no Brasil
Este povo em passadas intrépidas
Entre os povos valentes se impôs
Com a fúria dos leões
Rebentando grilhões
Aos tiranos se contrapôs
Ergue a tocha no alto da glória
Quem, herói, nos combates, se fez
Pois que as páginas da História
São galardões aos negros de altivez" 
(Hino da Negritude, Eduardo Oliveira)

Portanto companheirxs, somos música, dança, arte, conhecimento, oralidade, religiosidade sim, mas sobretudo, RESISTÊNCIA!





sexta-feira, 9 de maio de 2014

MC Luana Hansen fala sobre feminismo, Hip Hop e produção independente.

         Conajir - Luana, antes de tudo, nós agradecemos imensamente por nos conceder essa entrevista, para nós é um grande prazer. Bem, sem mais demorara, estamos ansiosos para te conhecer melhor e mergulhar no mar do Hip Hop feminino com Luana Hansen. Então, diz pra gente: quem é você e por que você escolheu a arte do Hip Hop?

          MC Luana - Sou Luana Hansen , em 2002 tive meu primeiro contato com o movimento Hip Hop, pois foi neste ano que conheci Sandrão (do grupo RZO), e logo gravei meu primeiro som no estúdio do DJ CIA com o grupo em que fiz parte: A - FORÇA.
Em setembro de 2003 conheci através do Sandrão (RZO) as meninas: Angélica e Tina, e com elas formei o Grupo A-TAL, parceria perfeita, três mulheres, que tinham algo em comum: a música. Afiadas na rima e no canto, munidas de composições próprias que relatavam o melhor do gueto com a elegância das festas Black.
Nestes anos de estrada, ao lado da Angélica e Tina, fiz uma história de muito barulho: Em 2004 no “AGOSTO NEGRO” no estádio do Pacaembu, abrimos o show do Racionais mc’s para mais de 16.000 pessoas e assim foi no Rio de janeiro no prêmio “HUTÚZ 2004”, em São Paulo na “GAVIÕES DA FIEL”, e no bairro do “CAPÃO REDONDO” para a comunidade.
O primeiro show do grupo ATAL com um artista internacional ocorreu no palco do “TOM BRASIL” no dia 05/05/04 onde fizemos o Show junto do cantor “JA RULE” e “SACRAMENTOS”.
Em 2005 foi um ano de conquista, nos dias 8 e 10 de abril participamos do projeto “INTERVALOS MUSICAIS” do CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL, por termos participado do Longa metragem de “Antônia” onde fiz o papel da vendedora de cachorro quente.
Neste mesmo ano nos dias 24 e 25 de julho fizemos a abertura do “CREATIVE COLOR um dos eventos mais importantes na área de cabelo e beleza no Brasil.
E ainda no dia 23 de novembro ganhamos nosso primeiro troféu no “HUTÚZ 2005” prêmio na categoria “MELHOR DEMO FEMININO” no Canecão - RJ e no dia 27 de novembro cantamos no “ARMAZÉN 5”, na festa de encerramento do evento. Tivemos o prazer do convite a algumas reportagens que as trouxeram a chance de contar com aparições nas revistas “RAP BRASIL”, “RAP NEWS”, “TRIBO” e “JORNAL O GLOBO” e várias composições gravadas. Depois de seis anos juntas cada uma resolveu seguir seu destino.
Tive a oportunidade de começar a desenvolver outros conhecimentos além de Rimar e fazer Freestyle comecei a me interessar pela arte dos vinis, tornando-me DJ.

(MC Luana Hansen)

Alguns de meus trabalhos desenvolvidos como DJ e MC:

Virada Esportiva-Parque do Ibirapuera 2007
Blitz Coca-Cola Promoção corda na rua
Projeto Souza Ramos (Ford) 2008
Festa na Fábrica da Oakley-Sp
9° Semana de Cultura Hip Hop - SESC Consolação
Projeto Hip Hop Mulher 2009
DJ / Mc’s do Tour do Rodriguinho 2010 (Chapada de Medicina-BA/ Samba Salvador-BA/ Rio de Janeiro-RJ /Belém /Aracaju/Porto Alegre/Florianópolis, Campinas, entre outros.

Em 2012 consolidei minha carreira solo. Ao lado de Elisa Gargiulo (feminista e vocalista do grupo DOMINATRIX e da banda Visiona) participou do Documentário: 4 MINAS, onde pude mostrar  o meu dia a dia como rapper , DJ e Lésbica assumida .Ainda com Elisa Gargiulo produzimos  uma de minhas músicas mais polêmicas “Ventre Livre  de Fato ” que esteve num festival pelos direitos Humanos na Espanha e ganhando uma versão com legenda em espanhol .
Nesse mesmo ano começou uma parceria com a Banda PLAY,  de DJ e MC junto aos ex – integrantes do grupo Sampacrew: Valtinho Jota e Junior Vox. No final de 2012 descobri mais um de meus dons, agora como atriz na Companhia de teatro XPTO,  desenvolvi um trabalho de educação de transito nas escolas do estado de Pernambuco ,com um musical que trás nas letras de Rap as leis e sinalizações a serem seguidas.
Em 2013 fiz vários shows como A caminhada das Lébicas e Bissexuais, Layde Fest - ao Lado das cubanas Krudas Cubansi , Marcha da Maconha-Santos , Festa do Babado - Unicamp - Pedala Bicha - Campinas -São Paulo não tolera Violência contra Mulher 
Em 2014 já participei do 8 de março -Ato do dia Internacional da Mulher - Camping Digital - a Marcha da Maconha - Caminhada das Lébicas e bissexuais
segui a agenda ....
Ao longo de minha carreira participei de eventos em “ONGs”, “Centros comunitários” de várias regiões da Grande São Paulo, cantei no evento “Hip Hop Cultural” chegando junto no show e nos debates, na “Galeria Olido” no centro aos quatros cantos da cidade, e em eventos de RAP ao lado de Quelinah, Guru, Max BO, Mc Auri (RJ), DJ ZÉ Colmeia, DJ Roger, o produtor Aldo Gouveia, WX, Cabal, Thaide, Rodriguinho (ex-Travessos)... Etc.
Continuo mantendo a qualidade, a originalidade e a beleza do som com um estilo mais “Gangstars” e “suingado”.
Agora produzindo de forma independente meu primeiro Álbum Solo em meu home Studio Com o nome DJ Luana Hansen, Promete sacudir a história do Rap Atual.
Contando com a parceria de Adriana Ferreira como (Back -Vocal)  e como equipe de Show.
Não escolhi o Hip Hop sinto que foi o Rap que me escolheu ...

(MC Luana Hansen)

        Conajir - Muitos Rappers costumar afirmar que o Hip Hop salva. Esta afirmação tem algum significado p/ você?

         MC Luana - Filha de mãe solteira  não tive nenhum padrinho musical ou algo do tipo. Dote musical foi o que aprendi nas ruas durante a minha passagem de garota pra mulher ,onde também deixei pra trás o meu desejo de jogar futebol e descobri as drogas e o crime,  nesta fase da minha vida conheci  o Crack,  no centro de São Paulo e descobri  onde tem e quanto custa! Sempre comprei por quantidade afinal era o ouro branco passava a noite na frente de umas das boates mais velha da cidade (LOVE STORY) e através das garotas de programa vendia muita droga pra no final da madrugada voltar para um apartamento no Copãn e usava 15 a 25 gramas de Crack por dia. De traficante a usuária em questão de segundos afinal faz dinheiro de dia perde a noite.
Mas também foi no meio de tanta coisa errada que eu aprendi a fazer algo certo pra mim...
Entre versos e o Crack percebi, (não sozinha é claro, com a ajuda de alguns e sim fui internada numa clinica de reabilitação) o meu verdadeiro potencial: a facilidade de narrar  o meu cotidiano, através do RAP e da Rima.
SIM O RAP ME SALVOU ....

      Conajir - Qual o seu envolvimento com o Hip Hop? Além de cantar Você tem um trabalho autoral e produz os seus discos, certo? Por que você escolheu este caminho?


       MC Luana - Como já disse não comecei hoje no hip hop, já trago uma caminhada de doze anos e vivi muitas situações que nunca visava realmente o meu potencial, ou seja, foram muito poucos os locais onde eu podia ser eu mesma e gravar sossegada. Sempre  fui de observar e querer aprender e percebi através do conhecimento  que não era tão difícil produzir ou criar, afinal tudo hoje em dia é digitalizado tornando bem mais fácil coisas como gravação e produção, fui pra cima. Nunca pensei em desistir mesmo quando ouvi  que os homens não querem uma "mina"rimando como homem, os caras querem as minas sensualizando. Achei isso tão fútil que criei meu CD em casa pra poder hoje estar ai sem medo de mostrar o que eu penso e acredito.

     Conajir -  Em uma de suas letras você diz:

“Morre negra, morre jovem
Morre gente da favela,
Morre o povo que é carente
Que não passa na novela
28 de setembro não é só mais um
É dia de luta, não é dia comum
Direito imediato, revolução de fato
Protesto na batida, ventre livre de fato
Direito imediato, revolução de fato” (...)

       Conajir - Você se sente privilegiada por ser uma mulher da cultura Hip Hop. Ou melhor, ser uma mulher no meio Hip Hop facilitou o seu sucesso profissional em algum momento? E dentro disso, você acha que Hip Hop e feminismo combinam?

         MC Luana - Não me sinto privilégiada no Hip Hop nem hoje, nem nunca fui.
Sou mulher e lésbica e o Hip Hop é Machista, fazer um trabalho onde você põe a mulher em primeiro plano desde a produção até a finalização trás um novo conceito.
A maior prova do machismo no RAP  pode ser vista em seus próprios eventos onde se pode contar nos dedos o número de mulheres convidadas para ocupar o palco.
Tenho facilidade de criar e improvisar e isso foi o que fez com que chegasse mais longe.
O hip hop e o feminismo são duas maneiras de protesto, que podem trabalhar juntos para trazer musicas assim como as minhas que retratam a realidade das mulheres, sendo assim um meio de levar ás pessoas de uma forma consciente e politica questões como violência domestica, sexual, a desvalorização da mulher no mercado de trabalho, a legalização do aborto (que foi tema de uma das musicas que criei juntamente com Elisa Gargiulo, feminista e vocalista da banda visiona), etc... ou seja são duas formas potenciais de valorizar a força da mulher. Sim o Hip Hop e o Feminismo combinam e muito!
Pra chegar onde quer chegar tem que ter amigos e eu os encontro entre pessoas que não necessariamente estão ligadas no hip hop.

(MC Luana Hansen)

       Conajir -  Você poderia citar algumas das duas suas refecias que considere ter forte influenciam sobre o seu trabalho?
        MC LuanaAcho que as minhas maiores influencias no Rap foram a  Queen Latifah é uma cantora, rapper e atriz norte-americana,  sempre foi uma mulher de atitude , responsavel por  um CD maravilhoso que ate hoje serve  de cabeceira, e é logico ela que é uma das maiores produtoras que existe Melissa Arnette Elliott, mais conhecida como Missy Elliott, é uma rapper, MC, compositora e produtora musical de Portsmouth, Virgínia.
Claro gosto de outras Rappers como Rha Digga, Lauryn Hill e não posso  dizer que eu não ouço outras coisas por exemplo  no meu Cd você pode encontrar referências Brasileiras por exemplo Clara Nunes, Bezerra da silva, Di -Melo,Hyldon.
Como Rapper nacional  Ouvi , Vi e Aplaudi muitas vezes minha querida Dina Dee , Negra Giza,Sabotage.
Sou eclética e tive grandes professores como: Wilson Sukorski , Ricardo severo , Rodolfo Valente grande compositores da musica Eletroacústica .
Acho que minha musica é como eu, uma mistura unica do sons, notas, letras e tons .

       Conajir -  Luana, o seu perfil compreende e representa muitas das lutas sociais no Brasil. Conte pra nós, pra você, o que é ser mulher, negra, periférica e lésbica neste país? Qual o seu maior sonho?

      MC Luana - Nossa! Como já disse uma vez, ser mulher já me coloca em segundo plano, pois é um sistema onde a mulher ainda não tem domínio do próprio corpo. Como  Negra, periférica e Lésbica  migramos para o quinto ou sexto  lugar. Não servimos, pois não somos submissas,  e é isso que me faz querer ir mais além.
Meu maior sonho de verdade é simples, ter minha casa própria, e poder criar lá um local cultural onde outras pessoas como eu possam ter a liberdade de dar um primeiro passo pra ir mais longe.
Hoje já tenho o meu estúdio onde vejo diariamente jovens tentando deixar um pouco do seu legado entre as rimas e versos .
Tento neste local criar músicas que relatam isso e já recebo e-mails de pessoas que querem que eu transforme Poemas, relatos, teses em música.
E é esse meu sonho viver do que faço , e fazer por algum sentido.


        Conajir -   MC Luana, muitas das nossas jovens da periferia se espelham em você por sua postura, coragem e militância. Se pudesse o que diria para cada uma delas, há  alguma mensagem em especial que gostaria de transmitir a elas?

        MC Luana - Nossa muito obrigada!Minha luta é diária e assim como as delas, as barreiras sempre virão mas nunca me esqueci de onde vim,  e que pra chegar onde cheguei, preciso e sempre precisarei de pessoas, amigos verdadeiros, pois nada tem valor nesta vida se não for feito com amor, e que mais bonito do que ter  é você ser humano.
A frase que eu deixo é da minha nova musica chamada Sabedoria ...

"Que espero de Deus, que como um flash arranque o rancor
e que todos nesta Terra seja mais do que Cor
Diga Não a todas guerras e seja licito Amar
e será certo acreditar num mundo Melhor"....

      Conajir -  Neste espaço vamos deixar em aberta para que você fale sobre algo que não perguntamos, mas que vc gostaria de falar.

       MC Luana - Adorei ter respondido suas perguntas e estou a disposição sempre que precisar ,

muito obrigada.

      MC Luana Hansen
Produtora: Adriana Ferreira                                                       
Email:Adriana_santosferr@hotmail.com

Musica:Ventre Livre de Fato